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sábado, 27 de dezembro de 2008

O Ter em detrimento do Ser

por Sylvio Micelli

Doces as priscas eras dos inventos e descobertas, celebrados por todos e que mudavam o rumo da humanidade. Nesta era digital que vivemos, parece que estamos sem rumo tamanha é a produção de equipamentos, os mais diversos, que brotam em nosso dia-a-dia.

Aquilo que é moderno hoje torna-se, invariavelmente, ultrapassado amanhã. Na era da evolução tecnológica e todo o seu aparato tornamo-nos reféns. É bem verdade que eu, particularmente, não fiz voto de pobreza. Gosto de coisas de qualidade, mas tento vê-las com o seu real valor de uso ou prazer que vão me proporcionar, extraindo-se qualquer sinal extra que simbolize poder ou status social. Portanto, a mera crítica pela crítica soaria hipócrita de minha parte, porque vejo importância dos aparelhos. O que causa-me incômodo, porém, é o exagero.

Claro que não vou pregar aqui que deveríamos ter ainda um telefone com disco e um aparelho cinza que freqüentava as casas três décadas atrás. Muito menos que devemos andar com os bolsos cheios de fichas telefônicas para fazer ligações no equipamento da esquina de casa. Por sinal, o orelhão, há muito, já abandonou a esquina da minha rua. Mas será que eu, você e todos nós já perguntamos o porquê da necessidade de termos um telefone celular. Pior. Será que tal aparelho, cuja finalidade essencial é fazer e receber chamadas, precisa também tocar músicas, tirar fotos, conectar-se à Internet, oferecer jogos, mensagens, além de sua utilidade precípua?

É bem provável que esta e outras perguntas nunca foram feitas e jamais o serão. É importante salientar que o crescimento de um país passa pelo seu desenvolvimento técnico, industrial, elétrico e eletrônico. Mas realmente precisamos de tudo isso? Será que não estamos mensurando os outros e nós mesmos pelo simbolismo do fetiche que Karl Marx já nos ensinou? É bem provável.

Marx desenvolveu uma teoria econômica e política baseada no fetiche e que é a idéia central de sua histórica obra. O filósofo, sociológo e economista alemão criticava os meios de comunicação de massa, a mercadoria e o capital. Segundo ele e a escola que o seguiu, o fetiche é a mola propulsora e responsável direta pela manutenção do Capitalismo e seu modo de produção. Marx determinou que o fetiche representa o simbolismo da mercadoria a projetar uma relação ou status social e que vai de encontro ao "valor de uso", ou seja, à real e necessária utilidade do produto.

Nesta ribalta do consumismo temos uma face amarga. A atual crise financeira mundial advém, em parte, do excesso de crédito concedido a pessoas que, na compulsão do ter, na competição com o outro e na valorização apenas do externo, daquilo que se pode ver tentou preencher um vazio que não é perceptível: a auto-estima.

Texto originalmente escrito em 20/10/2008

3 comentários:

Carlos Neder disse...

Sylvio

Gostei do texto, concordo com o conteúdo e vou repassá-lo aos meus filhos adolescentes.
Abraços, Neder

Carlos Neder
Vereador da cidade de São Paulo

Sergio Pires disse...

É verdade Sylvio...

Mas o "Ter" nos dias de hoje merece vários debates em diferentes vertentes. Uma dessas vertentes é "a morte do objeto", pois antes o "objeto" era "eterno" (durável). Diziamos com orgulho: "Este rádio era do meu avô", ou "esta televisão já tem 10 anos" e até as roupas: "Este vestido pertenceu a minha avó no baile de debutante". A idéia era do objeto eterno, hoje alguns sociólogos dizem que testemunhamos a morte do objeto, mesmo quando ainda nem o usufruimos, ele morre, pois nasce um "outro".

O consumismo não é por simplesmente "Ter", mas tem a ver com o "Ser", pois muitos objetos estão ligados a nossa "identidade", que reflete um tipo de comportamento. Um adolescente sem celular na escola é alvo de chacota, e quanto mais moderno o aparelho mais ele "é".

O mundo está cada vez mais coorporativo onde as "marcas" fazem parte de uma possível identidade, como nas casas de shows, rádios Oi FM e pura aí vai...

Até a nossa comida, deixou de ser alimentação para ser diversão, na visão de empresários de restaurantes. Pois é, e o debate por aí vai em várias vertentes, mas é um assunto legal. Mas, como vc disse... Para ter "auto-estima", é preciso se conscientizar para um consumo consciente, pois somos o que compramos!

See ya!

Simone Mariana Martins dos Santos disse...

oi caríssimo!!! gostei do texto.
bjux

Simone M M Santos