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sábado, 8 de novembro de 2008

Resumo da Ópera-Bufa Lulesca-Jeffersoniana

por Sylvio Micelli

A questão primordial que vejo neste caso todo é um processo de desmistificação de Lula e companhia graças ao "holofotismo" da mídia... Nós jornalistas, e que atire a primeira pedra quem pensar o contrário, adoramos sangue! Ver o circo pegar fogo. Algo como: "tá vendo, eu não falei?" Torcer pelo inferno de Dante... Citar "O Príncipe" de Maquiavel como um bálsamo para todos os males.

Quando Lula fala - e fala cada besteira - "que todo mundo já fez", ele está certo! O jeitinho brasileiro já está intrínseco à cultura tupiniquim. Quem de nós já não pensou em dar um "jeitinho", ou pagar um "cafezinho", numa situação em que estivemos do outro lado da lei ou do que quer que seja? Atirem quantas pedras quiserem.

A própria eleição de Severino Cavalcanti à presidência da Câmara dos Deputados é reflexo disso. Ele se autodenominava representante do "baixo-clero". Uma espécie de Robin Hood às avessas. Ele é o povão sim! Aquele que ajuda pinguços na cidade-natal. Ou que aceita o nepotismo diplomado.

A questão lulesca-jeffersoniana é muito menos importante que a patuléia nacional. Se houver o "impeachment" de Lula - o que acho pouco provável e nem torço para isso - vai apenas ser mais um caso, como o de Collor, nessa endemia nacional pouco resolutiva. Precisamos pensar, ainda, que vivemos num país novo (são 500 anos) em relação a outros tantos milenares e ainda buscamos uma identidade... Meus ancestrais vieram da Calábria e descendem dos mouros... Aqui, as múltiplas etnias não nos concedeu uma cara. Tenho que lembrar, com infinita saudade, de Cazuza! "Brasil, mostra a tua cara!"

Para piorar há diferenças gritantes na sociedade brasileira... Enquanto estou aqui no computador conversando com o "mundo", não muito longe daqui em Marsillac, na zona sul ou Terceira Divisão, no final de Sapopemba na leste (nem precisa ir ao Nordeste) há comunidades que desconhecem luz, esgoto etc e tal... E estou falando da cidade de São Paulo, a esquina do mundo...

Pois bem. Nunca achei que Lula fosse resolver todos os problemas. Primeiro porque seria um maniqueísmo burro e não me deixo levar pelos sofismas que aqui ou acolá, tentam nos impor. Segundo porque nossa pseudo-democracia é ainda imberbe... E o mais importante dos fatores: nossa sociedade pequeno-burguesa sugou o país de tal forma sem conceder-lhe nada em troca que seria boçal da minha parte aceitar mudança radical em 4 anos. Aliás... acho que se começarmos a alterar algumas coisas, os efeitos serão lá na frente. 10, 20, 30 anos.

Traço críticas aqui à democracia porque ainda não tenho como compreender a democracia como um regime de governo que mantém crianças nos sinais, mendigos assassinados, malas e cuecas milionárias andando por aí. Mas, por enquanto, não apareceu outro regime despojado de idiossincrasias em contraponto às ditaduras que não cerceie liberdades, nem mate Herzog.

Esta ópera-bufa maluca traz à tona uma sensação geral de corrupção. Mas, o que sobra de fato é uma paralisia que prejudica o Brasil. O que mais me entristece, além da situação em si, porque quem me conhece sabe o quanto amo a ciência Política, é o agravamento da crise e as desculpas esfarrapadas do partidários de Lula.

Resquentar denúncias velhas, afirmar que todos fazem as mesmas coisas, tentar conspurcar a opinião pública e transformar corrupção em crime eleitoral é golpe baixo daqueles que sempre investiram-se da aurela de anjos, arcanjos e querubins. Agora acenam com um grande acordo... Uma enorme pizza a cobrir o Eixão Monumental. Que nem prefiro comentar. Mas que de modo algum assustar-me-á...

Oras... Os ainda partidários de Lula pensam que eu sou burro. Ou ingênuo. Ou imbecil. Até posso ser tudo isso. Ou cada vez menos saber das coisas como diz o mestre Cony. Mas eu sei muito bem o que todos fizeram nos verões passados.

Eu sei o que Sarney fez para permanecer no poder. Sei o que ele fez para chegar ao Poder. Sair do PDS e se juntar à Tancredo. Eu sei todos os casos de corrupção do Collor e até em que circunstâncias ele foi alçado ao poder pela mesma mídia que o derrubou. Também sei da língua afiada de Itamar e suas namoradas e sei muito mais dos oito anos de tucanato do FHC. Sei que houve compra de votos no caso da reeleição. Sei das privatizações que foram nefastas ao país. E é bem provável que Marcos Valério já estivesse aí a financiar o propinoduto aéreo Pampulha-JK e conexões.

Mas também sei que Lula foi um metalúrgico que se transformou no maior líder sindical do país. E não entro aqui na questão de mérito de seus atos enquanto sindicalista. Sei que ele lutou para chegar aonde chegou com seus parcos recursos que todos conhecemos. Sei também das idéias que ele defendeu. Dos discursos que proferiu. E de todas as ilações e frases feitas que proferiu.

E aí - e sempre tem um condicional para atrapalhar - a roda pega. Nunca apreciei Genoíno ou Zé Dirceu. Nem sabia da existência de Delúbio, Silvinho e outros "companheiros". Nunca pensei tampouco que Lula daria um "cheque em branco" a Roberto Jefferson. Aquele mesmo que sempre gravitou em torno do poder constituído.

Em nome da tal "governabilidade", que expressa apenas um projeto de poder e não um projeto de administração, Lula fez os acordos que não devia. Este Lula não é o mesmo de 1989. Hoje é um Lula pasteurizado em embalagem Tetra Pak para regozijo dos pequeno-burgueses que acham uma "gracinha" ter um presidente que bebe pinga e leva sua finada cadela para passear em carro oficial.

Enfim, ele se cercou das pessoas erradas. Ouviu conselhos errados. Não posso acreditar que ele não soubesse das coisas. E tudo isso é lastimável. Porque eu e mais 52 milhões de sonhadores votamos, como já escrevi, numa promessa de paraíso. Não votamos em Delúbio, Genoíno e companhia. Votamos no ícone. Elegemos o novo Messias. Pusemos nossas esperanças na brejeirice a la Mazzaropi de Lula. Ele era o comum do povo. Um pedaço de nós todos. E não foram promessas eleitoreiras. Durante um quartel de século, o Partido dos Trabalhadores com Lula, seu maior expoente, foi o Tim Maia da política. O síndico. Aquele pronto a soar o alarme. A derrubar o regime militar. A bradar pelas Diretas. A derrubar Collor. Lula foi esse brasileiro - que não desiste nunca. E nunca desistimos. Até eu que NUNCA havia votado no PT, porque sempre vi um ranço totalitário em suas hostes, rendi-me ao bordão nacional após o Penta: "agora vai!!!!!!!!!!!".

E não foi. E o "medo" venceu a "esperança". E tudo era tão igual que os petistas se armam para a defesa com comida resquentada. Ninguém fala "eu sou inocente". Todos falam "ele também fez". Todos correm em busca de provas contra os outros, mandam recados ameaçadores e não se defendem. A regra é mais ou menos assim "eu não me limpo, mas eu te sujo". Agora temos aí, dinheiro, poder, corrupção, mentiras... Ninguém fala em milhares, mas em milhões. Mas os milhões são outros. Não são de dólares ou de reais. Mas são reais. Somos nós...

E nós? E quem nos defende da fome, do desemprego, da "doença" pública que não é mais saúde? Das terras que não são cultivadas, dos malabares nos semáforos e da prostituição infantil em troca de comida? Não queria tudo resolvido em 4 anos. Mas pelo menos o começo.

Sei de tanta coisa. Mas isso não sei. Não sei em quem votar. Não sei em que acreditar. O Brasil perdeu a cor. E como disse recentemente o grande Luiz Fernando Veríssimo "quem quase vive já morreu".

Texto originalmente escrito em 30/07/2005

7 comentários:

Marisa Ribeiro disse...

Nossa Sylvio, adorei o texto! Vou repassá-lo à minha lista de contatos... Expressa bem o sentimento que tb tenho em relação a tudo isso que está acontecendo... Ótima semana! bjos Má

02/08/2005

Josepha Britto disse...

Amigo Micelli: Que maraviha seu texto! E uma pena não poder colocá-lo para que todos o conheçam. V. deve perceber pelos meus informes que me recuso a incluir qualquer nota de acusação ou defesa, a não ser quando chega a falar dos temas que abordo, como por exemplo, o empréstimo consignado para os aposentados e pensionistas, que condeno desde o primeiro dia, pois acho que nós, os 23 milhões, estamos sendo usados. Tenho ainda esperança de viver (literalmente viver) dias diferentes dos que viví em meus 72 anos desta vida. Sei lá se isto será possível. Josepha

02/08/2005

Luciana Menezes disse...

bravo!!! estou contigo... beijo Luciana

02/08/2005

Vanderli Medeiros disse...

Bravo, muito bom seu texto Sylvio Vanderli

02/08/2005

Maurício Ribeiro disse...

Micelli, Não pretendo responder todas as questões que você levantou em seu mail. Concordo com a maioria, discordo de algumas por conhecer o PT de perto (participei da extinta lista de discussão do partido) e saber o quanto o partido é fragmentado _ bem mais do que aparenta, aliás. Portanto, não é de todo imaginar como plausível a idéia de estruturas independentes digladiando entre si por espaços de poder em Brasília, embora unidas sob um manto partidário. Não vou me alongar no que tange às demais agremiações, pois seria fugir ao assunto de sua mensagem, e não pretendo fazer isso. Apenas acrescento que ninguém é imune às brechas da lei que permitem uma promiscuidade poucas vezes vista entre os interesses privados e as estruturas políticas do país. Nesse universo agem desde a fundação da capital profissionais cujo objetivo é simplesmente defender interesses de bancos, indústrias famacêuticas, armamentistas, agricultores, etc Inclusive de empresas de comunicação não é bom esquecer... O lobista (este é o nome da profissão de Marcos Valério) mineiro age há muito no Planalto Central e se aproximou dos dirigentes do PT para ampliar aos poucos seu raio de ação dentro do governo, envolvendo muita gente nisso por sinal. Porém, posso estar errado, mas ao que parece falhou no que diz respeito aos interesses de um banco famoso, que cooptou a 'patriota' Fernanda Karina, o Opportunity. Arrumou briga de cachorro grande. Espero como poucos uma assepsia em regra no Congresso, e lamento que o Pefelê possua outras fontes de renda, que não serão alcançadas, embora alguns membros do partido já tenham aparecido em Minas, onde o partido se aliou ao PSDB de Azeredo. Ver ACM Neto posar de vestal é dose, convenhamos. Mas já leio no UOL News (Lillian Witte Fibe) que o avô já pensa em se aliar ao PSDB na Bahia... Em bom português, enxergou para onde estará ventando em 1996. Por paradoxal que pareça, estou gostando de ver Lula falando besteira, voltando a se juntar com o povo, e ignorando as investigações do Congresso. A liberdade dos parlamentares e do poder judiciário deve ser total. O presidente deve coordenar as ações do executivo _ torcendo para Severino colaborar, se é que isso é possível _ e contar com a competência de Dilma Riyussef (não sei se a grafia é esta). Só me pergunto uma coisa: será que a reforma política terá espaço na agenda do Congresso? [ ]s, Mauricio Alves jmauricioas@yahoo.com.br

04/08/2005

Maria Teresa Miceli Kerbauy disse...

O texto do seu blog está muito debochado. Parece que você está torcendo para tudo se transformar em pizza. Mas aguardemos o dia de amanhã, onde tudo pode acontecer, inclusive nada. Um grande abraço Teresa

02/08/2005

André Ramos disse...

Amigo Sylvio, boa tarde: Parabéns pelo texto, pela lição de civismo e lucidez. Não aquele civismo autoritário e imposto proveniente da caserna mas aquele que nos vem à tna justamente por emergir de nossas consciências. Mas a julgar pelo andar da carruagem, o andouro (que neste caso não é de barro) vai continuar a transportar nossas "otóridades" por longos e longos anos incólumes às mais elementares noções de dignidade, respeito ao patrimônio público e civismo - este mesmo que explanastes. Um abraço a você e a todos os amigos da + Atitude. André Ramos

04/08/2005