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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Abaixo a clonagem e viva o sexo!

por Sylvio Micelli

O ser dito humano sempre quis brincar de Deus. Desde que Ele nos pôs aqui (e deve arrepender-Se amargamente), nós, um conjunto medíocre de 208 ossos (será isso mesmo?), músculos, gordura (principalmente no meu caso) etc e tal, inventamos um jeitinho de gerar a vida sem que Ele e a Natureza achem que isso seja possível.

Não saberia - pela minha própria incompetência - avaliar os motivos que levam a essa busca incessante. A verdade é que nós não nos conformamos com a morte, a nossa única e imorredoura (e me perdoem o trocadilho) realidade. A prepotência do ser humano não lhe permite morrer. Exemplos são bons e vastos na literatura.

Veja o caso e já entra como dica, o fundamental O Retrato de Dorian Gray do polêmico, e por isso mesmo genial, Oscar Wilde, um livro de dois séculos de idade.

O jovem Dorian era belo e majestoso, mas como um ser humano absolutamente normal, tinha suas fraquezas, falta de caráter etc etc e bota etc em defeito humano. Mas teve um quadro pintado por um de seus amigos e por meio da pena genial de Wilde, Dorian fez um pacto com o quadro: permaneceria belo e com o eterno frescor dos vinte anos e caberia ao quadro, devidamente escondido, sofrer as agruras do tempo e do caráter. Não conto o desenrolar da estória porque vale a pena lê-la e vê-la em filme.

No Egito Antigo, as máscaras mortuárias e todo aquele aparato belíssimo de joalheria tinha a única intenção, qual não era, da imortalidade. Até no cinema infanto-juvenil de qualidade (e que serve para os juvenis há mais tempo) temos a boa história de Harry Porter e a Pedra Filosofal. O bruxo mais famoso de Hogwarts, junto de seus amigos, tenta salvar a tal pedra que dá, a quem dela tem posse, o elixir da imortalidade.

Eis o eterno paradoxo. Queremos a imortalidade física em detrimento da espiritual. Viver 300 anos para nada realizar... Fico pensando se Shakespeare, Voltaire, Villa-Lobos e Senna, só para citar uns nomes bem esporádicos, não são imortais...

Agora vem de novo essa história do clone atrelado a uma religiosidade de origem e fundamento duvidosos. Mas que importa... Sou totalmente a favor do desenvolvimento da medicina e da tecnologia. Até acho que podem ser criados em laboratório órgãos humanos artificiais ou, sei lá, que sejam derivados de um original humano... Mas daí a criar um novo ser, não desce nem com aquele comercial grudendo da cerveja ("e tava quente pra caraca!").

Entendo também o caso de pais que não podem, irremediavelmente ter filhos. Mas a adoção consciente está aí para isso. Não posso crer que um casal - independente do sexo de nascença - sejam tão malucos a entrar numa empreitada dessas.

Se o ser humano ainda não está totalmente apto a cuidar de si mesmo, construir prédios que não caiam, erradicar as doenças que acometem as camadas mais pobres de nossos bilhões de habitantes, e a mais fácil e árdua tarefa, que é respeitar ao próximo, nem de longe está habilitado a construir um novo ser. E mesmo que consiga, temo pelo espírito dessa criação. Há um provérbio - não me lembro de onde - que diz "você pode fazer o cavalo beber água, mas não vai fazê-lo sentir sede".

Quem me conhece, sabe que sou partidário da velha forma de "humanização" da Terra. Portanto, sexistas do mundo, uni-vos! Abaixo a clonagem e viva o sexo... A sacanagem fica por conta de cada um. E parem com essa idéia de clonagem e livrem a humanidade de um novo Micelli!

(*) Texto originalmente escrito em 29/12/2002

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