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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

SP - 449

Arte: Marcelo Senna

por Sylvio Micelli

Na minha terra há poucas palmeiras e os sabiás creio que nunca passaram por aqui. Na minha terra não há um lindo Cristo que transforma a Baía da Guanabara numa sucursal do paraíso. Tampouco na minha terra não há praias a banharem meus pés e as mulheres - belas - trafegam com suas vestes. Minha terra não se especializou em uma coisa porque na minha terra há um pouco de tudo. E morar em São Paulo é estar num caleidoscópio do universo.

E ser paulistano e ser cidadão do mundo. Nada contra as outras cidades, mas São Paulo é São Paulo. Dispensa codinomes e adjetivos. Minha vida modesta, simples e despojada confunde-se com a história da minha terra. Nasci no maior hospital da América Latina - o das Clínicas. Vivi duas décadas da minha vida num bairro longínquo que só Adoniran e os meus queridos santos Demônios poderiam eternizar - o Jaçanã.

Passei a viver na Mooca - um pedaço da Itália dos meus ancestrais e voltei ao Centro, ao lado da história do tradicional Colégio Caetano de Campos que hoje abriga a Secretaria da Educação.

São Paulo tem seus defeitos, comuns às grandes cidades: trânsito, violência, correria, estresse. Mas tem suas qualidades incomuns a qualquer outro lugar do mundo: seus restaurantes, sua noite absurdamente clara e linda, sua vida que não pára, sua vida 24 horas.

Mentalmente faço um trajeto que marca a minha vida. Saio lá da Avenida Guapira no final do Jaçanã. Por suas curvas abraço o Tucuruvi. Entro na avenida "nova" - a Luiz Dumond Villares - que sequer existia quando os ônibus da CMTC - Jaçanã/USP - eram azuis-marinho e curvilíneos. Alcanço Santana, passo pelo Center Norte que vi ser construído e o Terminal Tietê de onde cheguei e parti tantas vezes... Mas sempre voltei. Chego à Avenida Tiradentes que tantos desfiles vi. Passo pela Fatec, onde concluí meus últimos estudos. Abraço o Arte Sacra e a Pinacoteca onde nossa história lá está preservada. Chego à Ipiranga e cruzo com a São João que Caetano imortalizou. Paro e calmamente, tomo um chopp no Brahma. Sigo pela República, ao lado de casa, e subo pela Consolação que, disparada, é a rua-avenida que mais passei em toda a minha vida e a que eu mais conheço.

Como o pensamento desconhece regras de trânsito. Entro no Piauí pela contramão, viro a direita e desço a Itambé. Lá, paro no portão 27 do meu Mackenzie onde estudei desde as primeiras letras até o antigo ginásio. Passei lá, um quarto de minha vida. Entro pela Maranhão onde hoje meu pequeno príncipe - Victor - inicia seus estudos e subo a Angélica.

Retorno pela Praça Buenos Aires e retomo minha íntima Consolação. Cruzo a Paulista e por debaixo das pontes da modernidade chego à Rebouças. Numa prece reverencio o hospital que me trouxe para esta vida terrena. Retomo a Paulista onde comecei a trabalhar 15 anos atrás e onde comecei a namorar minha esposa.

Não dá para não viver e sentir São Paulo quando sua entranha se confunde ao asfalto cinza da cidade onde cinza tem um colorido todo especial. Afinal, você São Paulo é punk, rock e hip hop. É samba, rap e chorinho... Todos os sons, todas as vozes e nunca ao silêncio...

Ah! São Paulo. Por vezes brigo com você. Reclamo... Penso em mudar. Um local mais calmo, mais tranquilo... Mas conseguiria uma planta viver sem as suas raízes... Creio que não!

E eu nem falei do Corinthians, do Pacaembu e do Morumbi...

E eu nem falei do Famiglia Mancini, de O Gato que Ri e do Terraço Itália...

E eu nem falei do Cinespacial, do Comodoro e do Olido...

E eu nem falei do Mappin, da Mesbla e da Ducal...

Porque se eu fosse falar tudo o que você representa para mim... teria que reescrevê-la, aprendê-la e amá-la por mais 449 anos!

Texto originalmente escrito em 24/01/2003

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