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domingo, 31 de maio de 2009

Eu sou um menino mau!

por Sylvio Micelli

Após ter ouvido o Editorial da Rádio Bandeirantes na data de 15/01/2003 que pregava a necessidade da Reforma da Previdência, a segunda em quatro anos, e que, equivocadamente, fazia seu ouvinte confundir direito com privilégio, resta-me humildemente, sendo jornalista, escrever o seguinte:

Tenho quase 32 anos de idade, mais de 1/3 deles, dedicados ao funcionalismo público do meu estado. Sou pai de família, pago a tonelada de impostos que os governantes impõe-nos goela abaixo. Faço parte da chamada classe média, conhecida também como aquela que paga a conta na régua que separa o milionário do mendigo. Janeiro para mim é o pior mês do ano. IPTU, IPVA, matrícula de escola, material, uniforme, dívidas do fim do ano e aquelas ad infinitum como a do cheque especial, que há muito faz parte do orçamento doméstico. Não tenho passagens pela polícia. Nunca roubei, nem matei. Não dirijo embriagado, não traio. Sou bom pai, bom marido e, quero crer, bom funcionário, dentro da minha limitação que é apenas saber, muito mal, escrever.


Mas sou um menino muito mau... Sou funcionário público. Meu mau, aliás, é congênito. Minha mãe trabalhou apenas quatro décadas para a Prefeitura, na área de saúde. Eu, mesmo tendo trabalhado desde cedo para ajudar no sustento de casa sou um menino muito mau. Acordando às 5 e meia da manhã. Saindo do bairro do Jaçanã, para trabalhar na Paulista. E fazia colegial à noite no Caetano de Campos. Chegava ao mesmo Jaçanã à meia-noite.


Mas sou um menino muito mau... Sou funcionário público. Quando entrei no quadro do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo queria me encostar. Afinal, em 1991, ouvia aquele presidente que falava dos marajás e a mídia aplaudia. Aí eu achei que essa era a vida dos deuses. Como queria viver na vagabundagem, como falou um outro presidente, gastei em cursos e apostilas, li e reli e reli e reli coisas até então desconhecidas do mundo do Direito.


Mas sou um menino muito mau... Sou funcionário público. Consegui meu intento! Prestei um concurso para 390 vagas disputadas por mais de 50 mil candidatos ao ócio e passei. Tomei chuva no dia do concurso e depois no dia da prova de datilografia, que ainda existia naquele tempo.


Mas sou um menino muito mau... Sou funcionário público. Logo quando assumi um cargo efetivo, prêmio pela minha merecida vagabundagem, informaram-me que a vida de servidor era uma maravilha. Comecei a trabalhar no Fórum João Mendes, lugar onde meus convivas sequer tinham onde se sentar... Mas para que... Podiam ficar mais tempo sem fazer nada num espaço onde mais de 20 mil processos se acumulavam. Descobri depois que, além das cadeiras, faltariam canetas, lápis, papel, computadores etc etc etc etc etc etc


Mas sou um menino muito mau... Sou funcionário público. Comecei a trabalhar cerca de 10, 12, 14 horas por dia. Cheguei a entrar antes das 7 e sair depois das 10 da noite. Afinal não media esforços para vagabundear. Para ficar mais tempo sem fazer nada resolvi trabalhar sábados, domingos, feriados, dias santos. Resolvi esquivar-me das férias e percebi que se trabalhasse na apuração das eleições provaria a todos que era um grande sem vergonha...


Mas sou um menino muito mau... Sou funcionário público. Quando entrei no jogo, pagava ao IPESP (Instituto de Previdência) e ao IAMSPE (Instituto de Assistência Médica), 8% do total do meu salário, sem falar no Imposto de Renda e suas alíquotas. Mas me falaram que eu podia ficar tranquilo no meu dolce fai niente que quando me aposentasse teria direito à integralidade dos meus vencimentos.


Mas como sou um menino muito mau... Sou funcionário público. O governo resolveu que a minha dolce vita era pouca. Teria que trabalhar mais, aliás coçar mais. Impôs então regras de transição para que, alegremente pudéssemos nada fazer, por mais tempo...


Enquanto isso, como sou um menino muito mau... Sou funcionário público. Fazia minha faculdade de jornalismo. A mesma rotina sair cedo, chegar mais da meia-noite. Mas eu mereço, afinal sou um menino muito mau... Sou funcionário público.


Fui trabalhar no Fórum Criminal. Trabalhava em sintonia com as polícias e fóruns de todo país. Aliás, trabalhava não! Todos nós, sem exceção, vagabundeávamos felizes.


Os anos se passaram e agora nem querem garantir o meu salário na aposentadoria. Pago, conforme a lei, sobre o total dos meus vencimentos. Não tenho Fundo de Garantia, nem sequer recebo vale transporte. Meu salário - pouca coisa acima do mínimo apontado pelo Dieese - está congelado há oito anos. Afinal, somos todos meninos e meninas muito maus... Somos funcionários públicos. Inclusive os aposentados e pensionsitas.


O governo age de forma perdulária. Desvia nossos recursos para obras faraônicas. Torra nossa previdência e gera um passivo atuarial incomensurável... Ajuda a bancos e banqueiros falidos... Mas eu mereço... Sou um menino muito mau... Sou funcionário público.


Elejo um novo governo com "novos" pensamentos e nem tomaram posse ainda e já falavam em mexer na previdência. Mais uma vez eu mereço... Sou um menino muito mau... Sou funcionário público.


Acho então que devemos extinguir o serviço público. Aí arrumariam outro culpado. E eu descansaria em paz, afinal mereço... Sou um menino muito mau... Mas com orgulho, sou funcionário público.


Texto originalmente escrito em janeiro de 2003


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