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domingo, 31 de maio de 2009

Os sem dias de Lula

por Sylvio Micelli

Primeiro, quero deixar claro que votei em Luiz Inácio Lula da Silva pela primeira vez no segundo turno das eleições de 2002. Entendia que, apesar de sua inexperiência administrativa, seu partido político estava amadurecido e era questão de tempo a ascenção ao poder. Pesou na minha decisão, a questão do neoliberalismo e a redução do estado mínimo de FHC, mesmo reconhecendo sua postura de estadista.

Nunca fui partidário do PT ou dos chamados partidos de esquerda. Na verdade, nunca fui de partido nenhum. Prefiro os homens e seus caráteres às siglas que hoje, pouco ou nada representam. Até sou filiado a um partido, mas o fiz para ajudar outras pessoas.


Votei em Lula, enfim, como a única alternativa real de mudança. Votar em José Serra era o continuísmo e, além disso, ele não me inspirava confiança. Vejo, em tão pouco tempo que me arrependi. Como me arrependi com Collor em 1989. Mas lá atrás eu nem tinha completado duas décadas de vida e confesso, resignado, que nem sei porque votei nelle. Saibam todos que arquei e muito com a decisão errada.

Com Lula, a frustração entretanto é maior. Eu amadureci, ele amadureceu, mas tenho a sensação de que nada vai, inexoravelmente, dar certo. Não me considero um analfabeto político porque desde a chamada tenra idade sempre acompanhei, por gosto reconheço, as tratativas da política tupiniquim. Vivi realmente o dia-a-dia da política brasileira desde Figueiredo.


A mídia gosta de massificar a tal da marca dos cem dias. Uma verdadeira bobagem se verificarmos que não elegemos, quem quer que seja, para três meses e dez dias. São quatro anos, cujas decisões ou a ausência delas podem durar décadas. O período de cem dias pode até ser pouco para uma avaliação. Mas ninguém pode terminar bem se nesse período começou mal. Ou nem começou...


Pois bem, os tais cem dias ou melhor cento e nove dias (escrevo em 19 de abril do nascimento de Vargas) do governo Lula foram um fiasco. Além de sua já conhecida inexperiência administrativa pelo fato de ter sido deputado uma única vez e jamais ter exercido um cargo executivo, seus ministros e diversos membros do escalão são, na grande maioria de uma ineficiência torpe. Sobrou discurso, faltou ação. O governo Lula inexiste. Onde estão as grande coisas, as mudanças retumbantes... O que fez, por exemplo, Cristovam Buarque pela educação... E o Ministro da Saúde... Alguém aí se lembra do seu nome... E o Trabalho com a criação de milhares de empregos... Lula falou que iria criar, se não me falha a memória, 10 milhões de empregos. Como o seu mandato tem a duração de 1461 dias, ele e Jacques Wagner deveriam ter criado 746 mil empregos nestes cento e pouco dias... Cito as três pastas por serem na minha opinião as mais importantes de nosso país e traduzirem nossos principais problemas: trabalho, saúde e educação.


O Fome Zero, carro-chefe do governo, é até aqui patético como o senhor José Graziano. O povo brasileiro parece-me cansado da política da concessão de migalhas. Vale isso, bolsa daquilo. O pessoal de Guaribas queria mesmo água para plantar e beber. Por que não dessalinizar as águas de nosso enorme Atlântico e levar para a caatinga...


Os ministros não se entendem. Parlamentares do próprio PT querem sair do limbo atacando o partido e assim caminhamos nessa babel. E Lula ainda criou um "conselhão", na grande maioria, composto por grandes executivos, os patrões que Lula e o PT detonoram no passado. Será que o senhor Eugênio Staub da Gradiente, por exemplo, sabe o que é, verdadeiramente, o serviço público. Acredito que não.


Agora, resolveram comemorar a queda do dólar e o do risco-país, índices determinados pelo deus-mercado para os países terceiro-mundistas. Além de ter mantido a política de FHC, Lula teve a benção do deus-mercado porque o dólar a 4 paus e o risco-Brasil batendo nos 2.500 pontos eram forjados diante das circunstâncias da não eleição de Serra para presidente. Como Lula está sendo "bonzinho", nada melhor que o deus-mercado colocar os índices nos patamares adequados como gostam os econo-chatos. Lucram os investidores, Lula e sua turma acham que tudo está ótimo mas alguém tem que pagar a conta.


Reprise de sessão da tarde, mexer com o funcionalismo público virou moda com FHC que Lulinha paz e amor com os mercados só faz retomar. A retórica é a mesma. Fazer reforma tributária para tampar os buracos, acabar com a corrupção, rever benesses a grandes instituições de ensino e hospitais cinco estrelas é muito complicado. Mexe com muitos interesses e 2004 está aí com as eleições municipais.


Resultado: pau no servidor público. Eles que tanto nos defenderam. Aliás, não nos defenderam. Defenderam a própria sociedade contra o estado mínimo perpretado por FHC. E em breve teremos de ouvir os petistas do alto escalão dizerem para esquecermos tudo o que disseram e escreveram como fez o próprio FHC tão criticado por eles.


Pau no servidor público, repito, porque é fácil. A sociedade é contra porque não sabe que a culpa é do ente invisível e impessoal chamado Estado. Falam de aposentadorias mirabolantes, que se podem contar com os dedos da mão, como se todo o funcionalismo as recebesse. Querem cobrar dos aposentados como se eles, ao longo de décadas, não tivessem custeado o país e seus diversos milagres e planos econômicos.


As operadoras de fundos de pensão internacionais, que já estão aqui no Brasil associadas a grandes bancos e que dispõem de enorme poder econômico, contam com as necessidades de sobrevivência da falida mídia nacional e aí o jogo está completo. Por trinta dinheiros os servidores públicos, que na grande maioria das vezes lutam sozinhos sem contar com o apoio de um Estado também deficitário, são vendidos como os grandes culpados das mazelas sociais. O pior é saber que o presidente de uma das centrais sindicais, que se portam como oráculos do bem e do mal e não defendem o funcionalismo, é um professor servidor público.


Obviamente que as propostas de reformas, especialmente a da Previdência, que deverão aportar no Congresso Nacional no dia 30 de abril serão bem aceitas por todos. O neogoverno neoliberal de Lula e seus ministros inaptos, o deus-mercado, a mídia oficialista, os parlamentares de oposição que hoje são situação, os parlamentares que hoje são oposição e que ainda ostentam o discurso da coerência e a sociedade que está naquelas de se defender.


Penso, entristecido, em quem poderemos votar nas próximas eleições. Pelo que vi nesse neogoverno neoliberal, o sal é o mesmo e resseca minha boca. Só mudou a logomarca.


Só pela curiosidade mórbida, o Ministro da Saúde chama-se Humberto Costa.


Texto redigido originalmente em 19/04/2003

Um comentário:

sergiospires disse...

Grande texto, concordo com os argumentos> Lula decepcionou muitas pessoas, mas dentro das expectativas e do cenário político brasileiro e mundial o Brasil pela primeira vez despontou como potência. Exageros à parte, o governo Lula, apesar das falhas ainda sim, superou FHC (uma continidade da política neoliberal), mas o fez com mais critérios. Com Lula, a "mão invisível do Estado", não foi tão invisível. Pode-se criticar e elogiá-lo dependendo do ponto de vista político em que nos colocamos. Acho que temos que criticar o governo Lula, pois decepcionou. Agora, se arrepender jamais! Pois as opções nas últimas eleições eram de pessoas que não merecem se quer ter o nome em uma cédula de votação.
Por conta disso... Dilma presidente!
Abração............