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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Caminha e o E-mail

Sylvio Miceli

Dia desses, quando abria minha caixa de correspondências, em meio às contas, extratos de banco, malas diretas e propagandas variadas, desde planos de saúde até pizzarias, encontrei uma carta endereçada a mim, vinda de um amigo que estava nos Estados Unidos.

Confesso que me assustei e comecei a me penalizar ao lembrar há quanto tempo não mando uma carta. Daquelas escritas a mão, contando situações, histórias e estórias variadas para aquele amigo ou parente distante e que há tanto tempo não se vê nem se tem notícia.


Ao abri-la, deleitei-me com sua leitura, onde esse amigo contava sobre sua passagem por lá, da saudade do nosso país e outros assuntos. Os garranchos, às vezes indecifráveis, faziam que eu ficasse deitado sobre aquele objeto por vários minutos, tentando fazer analogias, ou mesmo, descobrir sobre o que ele escrevia.


Hoje, em nome da modernidade, não se mandam mais cartas. A velocidade que impomos às nossas vidas, com aquela tenacidade de quem quer chegar mais rápido ao céu ou ao inferno, não nos permite escrevermos nada. Temos telefone, fax, computadores que, ao invés de unirem mais as pessoas, acabaram de vez com qualquer sentimento.


Tempos atrás, um moleque imberbe perguntou-me, com aquele ar de reformador do mundo, se eu não tinha um E-mail. Com minha negativa, ele arregalou os olhos e questionou como poderia viver sem um endereço virtual. É, hoje não há mais virtudes e tudo é virtual, inclusive as mentes. Senti-me um velho gagá e olha que nem cheguei à chamada meia-idade. Parecia um analfabeto, depois de tanto ter estudado, lido de Camões a Flaubert, de Wilde a Foucault, de Machado a Bilac, e Drummond e Suassuna et alii.


Dessa história veio em meus pensamentos e para variar, sem pedir licença, um questionamento: como Pero Vaz de Caminha escreveria a famosa carta nos tempos do E-mail. A pouco menos de um ano para completar meio milênio deste importante documento o que ele faria com sua narrativa extremamente pormenorizada e, por vezes, prolixa ?


Uso de todos estes prolegômenos, para ficar bem de acordo com o português escorreito, a fim de verificar o que seria de nossa “certidão de nascimento”, nosso batismo lusitano. Não ousarei escrever em português castiço, pois sou inepto e mal e porcamente, falo nosso português brasileiro com suas regras, lamentações e a incomparável beleza da última flor do lácio que Bilac deu-nos há mais de século.


Imaginemos que o Brasil só existisse para nós e que a Península Ibérica estivesse em polvorosa, pois anos atrás o navegador Cristóvão Colombo tinha viajado e chegado a um local chamado Cuba e tendo conversado com um barbudo conhecido por Fidel, que lhe contara das maravilhas do Caribe e suas deusas de tês morena, deixou D. Manuel enfurecido, ora pois. É lógico que aquela historiazinha de caminho para as Índias era mentira e o Rei de Portugal mandou imediatamente formar um grupo enorme de pessoas para uma das maiores expedições marinhas de que se tem notícia.


Mesmo tendo melhores comandantes, o rei escolheu Pedro Álvares Cabral, uma espécie de protegido do reino, por ser casado com uma neta de reis. É, desde aquele tempo, já existiam os apaniguados que perduram até nossos dias, uma erva-daninha difícil de ser combatida.


Nosso amigo Caminha lá estava. Ele, figura e obra ímpares, pois desconheço se há outras cartas contando a descoberta de outros países. Infelizmente, nosso respeitável escrivão, iria morrer pouco depois num ataque árabe.


Certamente, Caminha não despenderia muito tempo com trocas de E-mail. Destarte, redigiria à Majestade, simplesmente, que desde a saída do reino até ao abraço à terra na costa atlântica, ocorrera o sumiço da nau de Vasco de Ataíde, o que ele, lépido e fagueiro, apontaria como uma espécie de deserção.


Tampouco Caminha seria prolixo, mas talvez cometesse o mesmo erro gramatical em concordar Vossa Majestade com vossa terra, em vez de sua. Não saberíamos se hoje, após a era Salazar e a Revolução dos Cravos, bem como a modificação da estrutura ideológica da Igreja, nosso amigo Cabral daria os nomes de Monte Pascoal e Terra de Vera Cruz. Nosso nome não seria Brasil porque o pau-brasil não existiria mais. É bem provável que nossa venturosa terra adquirisse outro batismo. Não arrisco palpites.


Esta plaga tupiniquim, tão acolhedora e rica disporia hoje de outros habitantes não tão cordiais quanto nossos longínquos ancestrais. Muito bem. Os portugueses estão chegando às nossas terras em abril de 2000. Ao invés de índios nus e pintados, Caminha iria contar ao rei sobre trios elétricos, nádegas e a amabilidade que só a baianice tem. Em vez dos folguedos, Cabral, Caminha e sua turma cairiam no axé, regado a muito vatapá e água de coco. Descobririam assim, o que é que a baiana tem.


Caminha correria para o seu lap-top e mandaria uma mensagem ao Venturoso, logo na chegada: “Majestade, achamos um país quente, de comidas fortes e gente sem vergonha, em ambos os sentidos”. É bem provável que o escriba confidenciaria seus desejos secretos pelas nossas morenas bem torneadas, assim como fez com nossas índias, afinal a libido é eterna. Talvez considerasse estranho ver os moradores cobertos de brincos e tatuagens pelo corpo.


Ele não se preocuparia com quem visitasse a esquadra de Cabral nem se debruçaria em relatar nossa mata, pois esta não existiria mais. Apenas falaria a D. Manuel que as bugigangas para trocas eram outras. Algumas notas e moedas por um prazer qualquer, apenas. O rei perguntaria sobre riquezas. Não se falaria em ouro e, provavelmente, petróleo seria a pedra de toque da ganância lusitana. E nossa cara majestade lembraria Caminha de não esquecer que os degredados mereciam uma lição.


Enfim, graças a tecnologia, é bem provável que permaneceríamos sem uma certidão que nos reconhecesse, tal e qual milhares de cidadãos que, quinhentos anos depois, ainda aguardam serem descobertos pela sociedade.


(*) Texto originalmente escrito em 1998

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