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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Amor ... este substantivo tão concreto

Carmine Victório (*)

Alvíssaras ! Rogo perdão aos estudiosos e puristas da gramática. Peço licença ao Pasquale, ao espírito de Aurélio e que o professor Napoleão Mendes de Almeida, de onde estiver, me penitencie. Que Jânio Quadros não dê voltas em seu esquife ! Escreverei folhas e mais folhas, todos os vocabulários e vernáculos. Mas somente após bradar aos pontos cardeais, colaterais, ao infinito, ao transcendental o que é o amor. Sei que Caldas Aulete ou Celso Cunha e Cegalla não vão gostar. Mas que importa a gramática ou o dicionário quando o assunto diz ao coração ? Viajarei nas regras gramaticais e burlarei muitas delas para decifrar o milenar sentimento que une os povos. Nada do jargão amor e paz difundido como ideal de vida pelos hippies em meados da década de 60. Amor não precisa frases de efeito, nem faixas, tampouco definições. Mas eis-me aqui munido da pena tecnológica e tentarei o melhor.

Passo os olhos nos livros e tento uma explicação. Pego um Bilac e seu parnasianismo me comove. “Via Láctea”, “Nel Mezzo del Camin...”, aqui está o amor retratado por um gênio de todas as horas e letras. Amar é o verbo perfeito e sofregamente guloso. É transitivo direto, intransitivo e predicativo. É um fidalgo sentimento. É presente, futuro e imperativo. Mas, jamais admitirá o pretérito. Quem diz que amou e não mais o faz, jamais o sentiu. Nunca verteu uma lágrima que fosse. Muito menos leu Shakespeare, nem Gregório de Matos. Jamais pensou em táticas suicidas. Até o ceticismo de Nietzschie era sua forma de expressá-lo.

Ah ! O amor, este substantivo tão concreto ! Porém, que é amor ? Primeiro, vamos delimitá-lo, se é que isso seja possível. Nunca confundamos o amor com quatro paredes e alguns instantes de suor. Nem traseiros ou genitálias. Não há libido no amor. Esta é conseqüência daquele. Amor vem desprovido de flexão gradual. Não há pouco ou muito. Existe ou não. Amor também não admite o prefixo des. Desamor é invencionice dos que tem muito amor mas não são correspondidos. Não é verdade Nelson Rodrigues ? Mas ele, o amor, está lá. Impávido e colosso como o nosso hino que retratou a época de um Brasil onde ele existia aos borbotões. Hoje, em nome da modernidade, do chip e do stress, as pessoas ficam acanhadas em falar de amor. Mas não precisa falar, basta amar. Ele é todo o tempo do mundo, não precisa ser agendado, nem de reuniões. Amor não tem começo, nem meio, muito menos fim. Ele existe na própria essência da vida, essa coisa louca, que alguns chamam de missão. Quiçá impossível !

Não há como defini-lo. Nem formas ou modos. Ele é o principal responsável pelo fato da humanidade ainda não ter acabado com si própria. Podemos senti-lo. Está na surdez de Beethoven. Também está nos Noturnos de Chopin, na vibração de Stravinski e nas valsas de Strauss. E até na valorização post mortem de Van Gogh ou nas consagradas Leis de Mendel que não foram reconhecidas de início ou ainda as pernas tortas de Garrincha. Lá estava ele, por vezes, num estilo heterodoxo.

O amor é a língua universal tal e qual a batalha solitária do Esperanto de Zamenhof, ou Louis Braille ou ainda, o alfabeto surdo-mudo. Toda a galáxia entende. Não há mortal que não o reconheça. Para captá-lo basta rasgar o coração eliminando a hipocrisia, as idiossincrasias e os sofismas… É um postulado, um polígono de infinitas faces. É o sol, a lua e a gota de orvalho de cada manhã... os mares, as montanhas, fogo, terra, água e ar. É o cantar dos pássaros e o colo da pessoa eternamente amada. É o sorriso e o balbuciar das palavras do primeiro filho ou a experiência do idoso.

É constantemente descoberto desde o nascimento até a morte. Ah ! a morte. Eis um parêntese necessário. Enganam-se os que acham na morte, motivo para que o amor termine. Ledo engano. Como explicar a voz de Sinatra, o piano de Tom, a poesia de Vinícius, o alô de César de Alencar, as crônicas de Genolino Amado, a catequese de José de Anchieta, os irmãos Lumière, a sensualidade de Marylin Monroe e a postura de Kennedy ? E a vida no limiar de curvas que Ayrton Senna tão bem definiu ? E Ghandi, Martin Luther King e Chico Mendes ? Quem pode ignorar o sentimento infinito de amor ao observar tais modus vivendi. Está tudo aí para que sorvamos estas pequenas demonstrações de quão grande é o amor.

Entre os vivos, ele permanece e adquire novas feições a cada dia. Está no Nobel de Saramago e no Urso de Prata de Fernanda Montenegro. Está na narração quase esgoelada de José Silvério e na torcida brasileira de Fiori Giglioti. No pulo do gato de José Paulo de Andrade, nos filhinhos de Silvio Luiz e na voz irresistível de Cid Moreira. É o vocabulário escorreito de Caetano e as redondilhas de Chico. É a dança acrobática de Michael Jackson. Está em todas as atitudes soberbas mas, principalmente na humildade de cada um de nós. No bom dia, boa tarde, boa noite e como vai ?. É o respeito mútuo, um tanto esquecido aqui ou alhures neste final de década, século, milênio. Evoé amantes de hoje, ontem e sempre.

O amor está na eternidade. É Romeu, Julieta e Hamlet. E o Retrato de Dorian Gray também. Na loucura maravilhosa de Camus e no top dos tops Cidadão Kane. É a Madame Bovary de Flaubert, a Capitu de Machado de Assis, a Lolita de Nabokov, o ET de Spielberg, o Time de Pink Floyd, o Barbeiro de Sevilha, a Monalisa, os navios e espumas de Castro Alves e milhares, milhares, milhares e milhões de provas que o amor está aí e, assim, bateríamos a grandiosidade da Bíblia de Gutenberg. É Sabin, Pauster, Freud e todos aqueles que preservam a vida e a psique. Também está presente no J’Accuse de Emile Zola, nos manuscritos de Rui Barbosa, no sangue frio de Truman Capote e na liberdade de Herzog.

Enfim meus amigos, não há como defini-lo, talvez pressenti-lo mas, principalmente, exercê-lo em todos os instantes de nossa passagem meteórica por aqui. Amor desconhece raça, credo ou comportamento. Está disponível para agnósticos e ateus, espíritas e católicos, protestantes e budistas, nobres e vassalos, negros e brancos. É o tudo, porém nunca é o nada. E enquanto bom sonhador convoco todos os mortais para que amem. Sim, amem com todas as forças. Jamais se envergonhem ao chorar de alegria ou se emocionar com o sorriso amigo. É achar eufonia na microfonia e a visão perfeita na cegueira. É o paradoxo da sensatez e a loucura bela que faz com que sejamos capazes de girar as pás desse moinho (a la Cervantes) chamado existência. Amor é cem por cento sentimento, transpiração, sabedoria, inspiração, prosa, poesia, leitura e a mescla de tudo. O que sobrar para a humanidade é detalhe...

Texto publicado originalmente em 1998 sob o pseudônimo Carmine Victório para concurso da Casa do Novo Autor Editora

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