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domingo, 31 de maio de 2009

Procura em vão ou Azedume da mente

Sylvio Miceli

Acordei pouco das sete, aliás, como de costume. Não sei se meu organismo tem vida própria ou se há uma espécie de osmose entre eu e ele. É certo e sabido que meu corpo desconhece feriados e finais de semana. Deve estar acostumado com o atribulado cotidiano da cidade grande.

Não consigo enrolar em cima da cama. Minhas costas começam a doer e isso me irrita. Levanto bem devagar para não acordar minha mulher. Ando trôpego na escuridão tateando paredes e móveis. Entro na cozinha. Sobre a pia, restos de comida e o azedume da garrafa de champanhe aberta convidam alguns mosquitos, daqueles que estudamos na escola. Lembro-me das aulas de biologia e das feiras de ciências que não voltam mais. Por alguns instantes, alguns rostos passam pela minha cabeça. Não consigo ligá-los aos respectivos nomes. Um emaranhado de faces conhecidas e que, provavelmente, nunca mais verei. O que essas pessoas estariam fazendo ? Estariam todas vivas ? Já teriam formado uma família ? Essa roda-viva de indagações percorriam meu cérebro.


Num estalo, volto à realidade. Tomo um copo com água como se limpasse minhas entranhas. O silêncio é total, só quebrado quando aperto a descarga do banheiro. Resolvo tomar café na padaria e torço para que ela esteja aberta. Já imagino o rapaz que me serve reclamando da vida e dizendo o quanto é duro acordar cedo e trabalhar num feriado. Eu responderia a ele, que o mundo é um moto perpétuo e rotineiro e que Ano Novo significa uma folhinha nova na parede, apenas. É o recomeço, sem dúvida, mas é impossível nos livrarmos dos problemas quando muda-se apenas o último dígito.


Abro a porta de uma só vez. Aprendi com o tempo que abri-la, bem devagar, só faz mais barulho. Olho para o céu e nuvens dão o tom chumbo. O sol não quis se levantar. Talvez ainda esteja comemorando. Subo a íngreme rua da padaria. Caixas e restos de rojões sujam as ruas. Tudo virou uma pasta com a garoa da madrugada. A padaria está fechada com um aviso que só abrirá à tarde.


Chego à grande avenida do meu bairro. Só não estou em completa solidão porque alguns bêbados dormem ao relento. Sinal de que nada mudou. Alguns pássaros, que nunca aparecem expulsos pelo barulho e poluição resolveram assobiar, cantarolar e tossir um pouco. Acendo um cigarro e já quebro uma promessa feita na noite passada. Olho para a avenida vazia que se mescla ao meu vazio. Procuro algum lugar aberto e, se possível, uma banca de jornais. À distância recebo a companhia de um pequeno cachorro que anda em círculos e aproveita o sossego. Novas gotas de chuva pingam e o vento frio corta minha pele. Sigo em frente, como sempre, procurando algo. Não são só padarias e bancas de jornais que tento achar. A maior parte das vezes quero dar um rumo à minha vida.


Aquele pequeno cachorro acelera o passo e começa a correr desvariadamente. Quis a sorte ou o contrário dela que, naquele exato momento, um carro velho aparecesse e atropelasse o animal. Penso como são poucos os momentos de felicidade... Corro em direção ao cachorro e aparece um senhor maltrapilho sei lá de onde. Ele fala coisas que não consigo entender. Recolhemos o cachorro que já sangrava e o colocamos num canto de uma banca de doces. Só entendo o velho quando ele olha para mim e afirma que não havia mais jeito, que eu podia ir embora. O torpor tomou conta de mim, talvez pelo sentimento de impotência e o reconhecimento disso, que é o mais difícil.


Continuei minha caminhada mas a cena do atropelamento não saía da mente. Ao percorrer o trajeto contrário fiz questão de pegar um ônibus tentando deixar para traz o cão e o velho. Quando a condução passou pelo local, ambos estavam lá. Decidi não voltar para casa. Segui o trajeto da condução até o próximo bairro onde tive mais sorte e o comércio, às moscas, me aguardava. Estava há duas horas na rua. Resolvi apenas comprar pães e o jornal.


Quando cheguei em casa, minha mulher já havia acordado. Reclamava da minha demora e da louça que jazia sobre a pia. Nada relatei sobre o ocorrido. Ela falava mas não lhe dava atenção. Comi pouco e me deitei. Cochilei e assustado acordei pensando que tudo havia sido um pesadelo. As provas contrárias eram o jornal e saco de pães sobre a mesa.


Dei uma desculpa tosca e saí em procura do senhor e do animal. Não estavam mais lá e, estranhamente, não haviam marcas de sangue no local nem vestígios de água. Perguntei a mim mesmo, aonde haviam se enfiado. Cogitei que aquele senhor poderia ter levado o cachorro para sua casa, ou quem sabe, se aquilo teria sido apenas um susto estúpido e que ambos seguiram seus caminhos. Retornei e minha mulher perguntou se ocorrera alguma coisa, pois estava de semblante fechado, o que não era comum. Falei apenas que estava cansado.


Nunca saberei o que ocorreu naquele lugar. As imagens estão vivas na minha retina. Passo diariamente pelo local e tento imaginar quais seriam os desígnios de uma energia superior que havia elaborado aquela situação. Procuro descobrir o que o destino havia reservado àquele animal e ao velho. Jamais terei respostas. Enquanto isso, ainda vislumbro rumos à esmo na vã necessidade de ser humano.


Texto premiado e publicado na antologia “Best Seller - O Melhor da Literatura” da Litteris Editora 1998/9 (pg. 45)

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