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segunda-feira, junho 01, 2009

Caminha e o E-mail

Sylvio Miceli

Dia desses, quando abria minha caixa de correspondências, em meio às contas, extratos de banco, malas diretas e propagandas variadas, desde planos de saúde até pizzarias, encontrei uma carta endereçada a mim, vinda de um amigo que estava nos Estados Unidos.

Confesso que me assustei e comecei a me penalizar ao lembrar há quanto tempo não mando uma carta. Daquelas escritas a mão, contando situações, histórias e estórias variadas para aquele amigo ou parente distante e que há tanto tempo não se vê nem se tem notícia.


Ao abri-la, deleitei-me com sua leitura, onde esse amigo contava sobre sua passagem por lá, da saudade do nosso país e outros assuntos. Os garranchos, às vezes indecifráveis, faziam que eu ficasse deitado sobre aquele objeto por vários minutos, tentando fazer analogias, ou mesmo, descobrir sobre o que ele escrevia.


Hoje, em nome da modernidade, não se mandam mais cartas. A velocidade que impomos às nossas vidas, com aquela tenacidade de quem quer chegar mais rápido ao céu ou ao inferno, não nos permite escrevermos nada. Temos telefone, fax, computadores que, ao invés de unirem mais as pessoas, acabaram de vez com qualquer sentimento.


Tempos atrás, um moleque imberbe perguntou-me, com aquele ar de reformador do mundo, se eu não tinha um E-mail. Com minha negativa, ele arregalou os olhos e questionou como poderia viver sem um endereço virtual. É, hoje não há mais virtudes e tudo é virtual, inclusive as mentes. Senti-me um velho gagá e olha que nem cheguei à chamada meia-idade. Parecia um analfabeto, depois de tanto ter estudado, lido de Camões a Flaubert, de Wilde a Foucault, de Machado a Bilac, e Drummond e Suassuna et alii.


Dessa história veio em meus pensamentos e para variar, sem pedir licença, um questionamento: como Pero Vaz de Caminha escreveria a famosa carta nos tempos do E-mail. A pouco menos de um ano para completar meio milênio deste importante documento o que ele faria com sua narrativa extremamente pormenorizada e, por vezes, prolixa ?


Uso de todos estes prolegômenos, para ficar bem de acordo com o português escorreito, a fim de verificar o que seria de nossa “certidão de nascimento”, nosso batismo lusitano. Não ousarei escrever em português castiço, pois sou inepto e mal e porcamente, falo nosso português brasileiro com suas regras, lamentações e a incomparável beleza da última flor do lácio que Bilac deu-nos há mais de século.


Imaginemos que o Brasil só existisse para nós e que a Península Ibérica estivesse em polvorosa, pois anos atrás o navegador Cristóvão Colombo tinha viajado e chegado a um local chamado Cuba e tendo conversado com um barbudo conhecido por Fidel, que lhe contara das maravilhas do Caribe e suas deusas de tês morena, deixou D. Manuel enfurecido, ora pois. É lógico que aquela historiazinha de caminho para as Índias era mentira e o Rei de Portugal mandou imediatamente formar um grupo enorme de pessoas para uma das maiores expedições marinhas de que se tem notícia.


Mesmo tendo melhores comandantes, o rei escolheu Pedro Álvares Cabral, uma espécie de protegido do reino, por ser casado com uma neta de reis. É, desde aquele tempo, já existiam os apaniguados que perduram até nossos dias, uma erva-daninha difícil de ser combatida.


Nosso amigo Caminha lá estava. Ele, figura e obra ímpares, pois desconheço se há outras cartas contando a descoberta de outros países. Infelizmente, nosso respeitável escrivão, iria morrer pouco depois num ataque árabe.


Certamente, Caminha não despenderia muito tempo com trocas de E-mail. Destarte, redigiria à Majestade, simplesmente, que desde a saída do reino até ao abraço à terra na costa atlântica, ocorrera o sumiço da nau de Vasco de Ataíde, o que ele, lépido e fagueiro, apontaria como uma espécie de deserção.


Tampouco Caminha seria prolixo, mas talvez cometesse o mesmo erro gramatical em concordar Vossa Majestade com vossa terra, em vez de sua. Não saberíamos se hoje, após a era Salazar e a Revolução dos Cravos, bem como a modificação da estrutura ideológica da Igreja, nosso amigo Cabral daria os nomes de Monte Pascoal e Terra de Vera Cruz. Nosso nome não seria Brasil porque o pau-brasil não existiria mais. É bem provável que nossa venturosa terra adquirisse outro batismo. Não arrisco palpites.


Esta plaga tupiniquim, tão acolhedora e rica disporia hoje de outros habitantes não tão cordiais quanto nossos longínquos ancestrais. Muito bem. Os portugueses estão chegando às nossas terras em abril de 2000. Ao invés de índios nus e pintados, Caminha iria contar ao rei sobre trios elétricos, nádegas e a amabilidade que só a baianice tem. Em vez dos folguedos, Cabral, Caminha e sua turma cairiam no axé, regado a muito vatapá e água de coco. Descobririam assim, o que é que a baiana tem.


Caminha correria para o seu lap-top e mandaria uma mensagem ao Venturoso, logo na chegada: “Majestade, achamos um país quente, de comidas fortes e gente sem vergonha, em ambos os sentidos”. É bem provável que o escriba confidenciaria seus desejos secretos pelas nossas morenas bem torneadas, assim como fez com nossas índias, afinal a libido é eterna. Talvez considerasse estranho ver os moradores cobertos de brincos e tatuagens pelo corpo.


Ele não se preocuparia com quem visitasse a esquadra de Cabral nem se debruçaria em relatar nossa mata, pois esta não existiria mais. Apenas falaria a D. Manuel que as bugigangas para trocas eram outras. Algumas notas e moedas por um prazer qualquer, apenas. O rei perguntaria sobre riquezas. Não se falaria em ouro e, provavelmente, petróleo seria a pedra de toque da ganância lusitana. E nossa cara majestade lembraria Caminha de não esquecer que os degredados mereciam uma lição.


Enfim, graças a tecnologia, é bem provável que permaneceríamos sem uma certidão que nos reconhecesse, tal e qual milhares de cidadãos que, quinhentos anos depois, ainda aguardam serem descobertos pela sociedade.


(*) Texto originalmente escrito em 1998

domingo, maio 31, 2009

Procura em vão ou Azedume da mente

Sylvio Miceli

Acordei pouco das sete, aliás, como de costume. Não sei se meu organismo tem vida própria ou se há uma espécie de osmose entre eu e ele. É certo e sabido que meu corpo desconhece feriados e finais de semana. Deve estar acostumado com o atribulado cotidiano da cidade grande.

Não consigo enrolar em cima da cama. Minhas costas começam a doer e isso me irrita. Levanto bem devagar para não acordar minha mulher. Ando trôpego na escuridão tateando paredes e móveis. Entro na cozinha. Sobre a pia, restos de comida e o azedume da garrafa de champanhe aberta convidam alguns mosquitos, daqueles que estudamos na escola. Lembro-me das aulas de biologia e das feiras de ciências que não voltam mais. Por alguns instantes, alguns rostos passam pela minha cabeça. Não consigo ligá-los aos respectivos nomes. Um emaranhado de faces conhecidas e que, provavelmente, nunca mais verei. O que essas pessoas estariam fazendo ? Estariam todas vivas ? Já teriam formado uma família ? Essa roda-viva de indagações percorriam meu cérebro.


Num estalo, volto à realidade. Tomo um copo com água como se limpasse minhas entranhas. O silêncio é total, só quebrado quando aperto a descarga do banheiro. Resolvo tomar café na padaria e torço para que ela esteja aberta. Já imagino o rapaz que me serve reclamando da vida e dizendo o quanto é duro acordar cedo e trabalhar num feriado. Eu responderia a ele, que o mundo é um moto perpétuo e rotineiro e que Ano Novo significa uma folhinha nova na parede, apenas. É o recomeço, sem dúvida, mas é impossível nos livrarmos dos problemas quando muda-se apenas o último dígito.


Abro a porta de uma só vez. Aprendi com o tempo que abri-la, bem devagar, só faz mais barulho. Olho para o céu e nuvens dão o tom chumbo. O sol não quis se levantar. Talvez ainda esteja comemorando. Subo a íngreme rua da padaria. Caixas e restos de rojões sujam as ruas. Tudo virou uma pasta com a garoa da madrugada. A padaria está fechada com um aviso que só abrirá à tarde.


Chego à grande avenida do meu bairro. Só não estou em completa solidão porque alguns bêbados dormem ao relento. Sinal de que nada mudou. Alguns pássaros, que nunca aparecem expulsos pelo barulho e poluição resolveram assobiar, cantarolar e tossir um pouco. Acendo um cigarro e já quebro uma promessa feita na noite passada. Olho para a avenida vazia que se mescla ao meu vazio. Procuro algum lugar aberto e, se possível, uma banca de jornais. À distância recebo a companhia de um pequeno cachorro que anda em círculos e aproveita o sossego. Novas gotas de chuva pingam e o vento frio corta minha pele. Sigo em frente, como sempre, procurando algo. Não são só padarias e bancas de jornais que tento achar. A maior parte das vezes quero dar um rumo à minha vida.


Aquele pequeno cachorro acelera o passo e começa a correr desvariadamente. Quis a sorte ou o contrário dela que, naquele exato momento, um carro velho aparecesse e atropelasse o animal. Penso como são poucos os momentos de felicidade... Corro em direção ao cachorro e aparece um senhor maltrapilho sei lá de onde. Ele fala coisas que não consigo entender. Recolhemos o cachorro que já sangrava e o colocamos num canto de uma banca de doces. Só entendo o velho quando ele olha para mim e afirma que não havia mais jeito, que eu podia ir embora. O torpor tomou conta de mim, talvez pelo sentimento de impotência e o reconhecimento disso, que é o mais difícil.


Continuei minha caminhada mas a cena do atropelamento não saía da mente. Ao percorrer o trajeto contrário fiz questão de pegar um ônibus tentando deixar para traz o cão e o velho. Quando a condução passou pelo local, ambos estavam lá. Decidi não voltar para casa. Segui o trajeto da condução até o próximo bairro onde tive mais sorte e o comércio, às moscas, me aguardava. Estava há duas horas na rua. Resolvi apenas comprar pães e o jornal.


Quando cheguei em casa, minha mulher já havia acordado. Reclamava da minha demora e da louça que jazia sobre a pia. Nada relatei sobre o ocorrido. Ela falava mas não lhe dava atenção. Comi pouco e me deitei. Cochilei e assustado acordei pensando que tudo havia sido um pesadelo. As provas contrárias eram o jornal e saco de pães sobre a mesa.


Dei uma desculpa tosca e saí em procura do senhor e do animal. Não estavam mais lá e, estranhamente, não haviam marcas de sangue no local nem vestígios de água. Perguntei a mim mesmo, aonde haviam se enfiado. Cogitei que aquele senhor poderia ter levado o cachorro para sua casa, ou quem sabe, se aquilo teria sido apenas um susto estúpido e que ambos seguiram seus caminhos. Retornei e minha mulher perguntou se ocorrera alguma coisa, pois estava de semblante fechado, o que não era comum. Falei apenas que estava cansado.


Nunca saberei o que ocorreu naquele lugar. As imagens estão vivas na minha retina. Passo diariamente pelo local e tento imaginar quais seriam os desígnios de uma energia superior que havia elaborado aquela situação. Procuro descobrir o que o destino havia reservado àquele animal e ao velho. Jamais terei respostas. Enquanto isso, ainda vislumbro rumos à esmo na vã necessidade de ser humano.


Texto premiado e publicado na antologia “Best Seller - O Melhor da Literatura” da Litteris Editora 1998/9 (pg. 45)

Carta ao herdeiro


Carmine Victório (*)

Que bom que você chegou ! Já havia sonhado com este momento várias vezes, porém a realidade mostrou-me uma face muito mais bela e tranqüila. Sua chegada veio trazer-nos a continuidade de nossas próprias existências e talvez até um novo rumo à elas. Também a supressão das deficiências, afinal nunca sabemos o quanto somos capazes quando novas coisas acontecem.


Somos eternamente náufragos dentro de nós mesmos.

Não entendo bem a magia da concepção, nem tampouco ultrapasso o conhecimento mediano de Genética. Ah, as ervilhas ! como descobriu-se tantas coisas com elas. Quem sabe eu entenda bem de coração e isso basta dentro da pequenez humana.

Meu filho, as coisas não estão muito bem por aqui. Nessa transcendência que você acaba de cumprir, às vezes questiono e, um dia, você também irá fazê-lo, se o melhor negócio não era permanecer onde estava, longe dos desmandos daquele que um desavisado ousou chamar de ser humano.

Nesta galáxia, particularmente neste exato ponto tropical abaixo do Equador, vejo toneladas de pessoas que, feito massa de manobra, aguardam uma oportunidade, qualquer que seja ela. Um emprego, um prato de comida, um político que resolva todos os problemas, um novo Maomé, o retorno de Jesus, quem sabe até a presença Dele, ao vivo e em cores.

Medíocres pensamentos por vezes sobejam minha cabeça. Sinto o sussurro da brisa me lembrando que o mundo acabou mas todos nós não nos demos conta disso. Ignoro essa pusilanimidade e escrevo tentando decifrar mistérios que estão sob nossos narizes, mas o cérebro obtuso não os observa.

Você que chega agora vai gargalhar quando descobrir que os grandes mestres, tais como Shakespeare, Kafka, Dante ou Camões, escreviam com penas. Aliás não escreviam com penas e sim, com o pensamento. Ah ! quantos ensinamentos ! Para que servem ? Você que habita sua nova morada próximo ao terceiro milênio descobrirá um dia, porque certas razões não combinam e, que nem tudo que é legal, é moral. Hoje, a tecnologia avança em velocidades geométricas. Máquinas já nos substituem no trabalho. Ainda hão de inventar um cérebro perfeito, onde não haja afeto e que, com exatidão algébrica, reduza todos nós, pobres mortais, ao pó do qual viemos.

Gostaria de oferecer a você, filho, um mundo sem guerras idiotas e que não levam a nenhum lugar, exceto àqueles sete palmos garantidos a todos nós. Como seria bom ver o patriotismo não apenas na sazonalidade da copa do mundo. Mas circo é o que se oferece como entorpecente ao povo na tentativa de desviar-lhe a atenção de assuntos realmente importantes. Tudo na vida é cíclico e, nem sei mais, se Warhol estava certo ao afirmar que todos terão seus quinze minutos de fama. Talvez alguns instantes e nada mais, como os corvos de Poe.

Hoje em dia, meu querido, primeiro se acusa para depois fazer aquela velha verificação tardia dos fatos, não importando nada nem ninguém. Degolam-se as metas e os sonhos em nome de uma coisa que nem nome tem, ou não se sabe determinar. A humanidade valoriza algo exterior a ela perdendo-se a essência e a noção do certo ou o errado, talvez duvidoso. Mas não pense você que é só isso. Há também a competição atroz, transformando-se o companheiro em algoz, aqui ou alhures.

Gostaria de informar coisas boas, que a vida é bela ou a fome não existe. Infelizmente, a história, que é uma biografia dos humanos à qual falta a última página, me desmentiria. Daí um dia você vai perguntar ao seu pai se não há nada de bom por aqui. E eu direi à você que, apesar dos pesares, a lealdade e honestidade devem prosperar.

Informarei ainda, que você será tratado como um mero número, aliás vários deles. Que para a maioria das pessoas, você não passará de um idiota se fizer e pensar apenas coisas boas e, que a sociedade estará pronta para apertar o alarme quando você errar. Será alvo de inveja e maledicência e, por muitas vezes, estará em dúvida se as pessoas que chegam até você, o fazem pelo que você tem ou pelo que você é. Eis o grande dilema de nossas vidas. Peço que não aja apenas por diletantismo. Prazer é bom mas a sobriedade é a base de todas as demais coisas, em conjunto.

Faça o que fizer, seja o que for, dê tudo de si mesmo. Ame alguém e tenha seus filhos. Passe a eles a herança da dignidade. Sei que isso pode soar anacrônico ou datado. Já ouvi em algum lugar. Talvez tenha sido aquela brisa do fim de tarde que anuncia quando a lua chega e que devamos nos preparar para um novo dia. A história se repete e, é bem provável, que o mundo gire por causa disso. Nunca se iluda com alguém ou qualquer coisa, pois a desilusão traz-nos um quê de impotência minando aquilo que temos de melhor, ou seja, a esperança de que qualquer dia desses as coisas irão melhorar.

(*) Texto originalmente escrito em 1998 sob o pseudônimo Carmine Victório para concurso da Editora Lítteris do Rio de Janeiro

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Amor ... este substantivo tão concreto

Carmine Victório (*)

Alvíssaras ! Rogo perdão aos estudiosos e puristas da gramática. Peço licença ao Pasquale, ao espírito de Aurélio e que o professor Napoleão Mendes de Almeida, de onde estiver, me penitencie. Que Jânio Quadros não dê voltas em seu esquife ! Escreverei folhas e mais folhas, todos os vocabulários e vernáculos. Mas somente após bradar aos pontos cardeais, colaterais, ao infinito, ao transcendental o que é o amor. Sei que Caldas Aulete ou Celso Cunha e Cegalla não vão gostar. Mas que importa a gramática ou o dicionário quando o assunto diz ao coração ? Viajarei nas regras gramaticais e burlarei muitas delas para decifrar o milenar sentimento que une os povos. Nada do jargão amor e paz difundido como ideal de vida pelos hippies em meados da década de 60. Amor não precisa frases de efeito, nem faixas, tampouco definições. Mas eis-me aqui munido da pena tecnológica e tentarei o melhor.

Passo os olhos nos livros e tento uma explicação. Pego um Bilac e seu parnasianismo me comove. “Via Láctea”, “Nel Mezzo del Camin...”, aqui está o amor retratado por um gênio de todas as horas e letras. Amar é o verbo perfeito e sofregamente guloso. É transitivo direto, intransitivo e predicativo. É um fidalgo sentimento. É presente, futuro e imperativo. Mas, jamais admitirá o pretérito. Quem diz que amou e não mais o faz, jamais o sentiu. Nunca verteu uma lágrima que fosse. Muito menos leu Shakespeare, nem Gregório de Matos. Jamais pensou em táticas suicidas. Até o ceticismo de Nietzschie era sua forma de expressá-lo.

Ah ! O amor, este substantivo tão concreto ! Porém, que é amor ? Primeiro, vamos delimitá-lo, se é que isso seja possível. Nunca confundamos o amor com quatro paredes e alguns instantes de suor. Nem traseiros ou genitálias. Não há libido no amor. Esta é conseqüência daquele. Amor vem desprovido de flexão gradual. Não há pouco ou muito. Existe ou não. Amor também não admite o prefixo des. Desamor é invencionice dos que tem muito amor mas não são correspondidos. Não é verdade Nelson Rodrigues ? Mas ele, o amor, está lá. Impávido e colosso como o nosso hino que retratou a época de um Brasil onde ele existia aos borbotões. Hoje, em nome da modernidade, do chip e do stress, as pessoas ficam acanhadas em falar de amor. Mas não precisa falar, basta amar. Ele é todo o tempo do mundo, não precisa ser agendado, nem de reuniões. Amor não tem começo, nem meio, muito menos fim. Ele existe na própria essência da vida, essa coisa louca, que alguns chamam de missão. Quiçá impossível !

Não há como defini-lo. Nem formas ou modos. Ele é o principal responsável pelo fato da humanidade ainda não ter acabado com si própria. Podemos senti-lo. Está na surdez de Beethoven. Também está nos Noturnos de Chopin, na vibração de Stravinski e nas valsas de Strauss. E até na valorização post mortem de Van Gogh ou nas consagradas Leis de Mendel que não foram reconhecidas de início ou ainda as pernas tortas de Garrincha. Lá estava ele, por vezes, num estilo heterodoxo.

O amor é a língua universal tal e qual a batalha solitária do Esperanto de Zamenhof, ou Louis Braille ou ainda, o alfabeto surdo-mudo. Toda a galáxia entende. Não há mortal que não o reconheça. Para captá-lo basta rasgar o coração eliminando a hipocrisia, as idiossincrasias e os sofismas… É um postulado, um polígono de infinitas faces. É o sol, a lua e a gota de orvalho de cada manhã... os mares, as montanhas, fogo, terra, água e ar. É o cantar dos pássaros e o colo da pessoa eternamente amada. É o sorriso e o balbuciar das palavras do primeiro filho ou a experiência do idoso.

É constantemente descoberto desde o nascimento até a morte. Ah ! a morte. Eis um parêntese necessário. Enganam-se os que acham na morte, motivo para que o amor termine. Ledo engano. Como explicar a voz de Sinatra, o piano de Tom, a poesia de Vinícius, o alô de César de Alencar, as crônicas de Genolino Amado, a catequese de José de Anchieta, os irmãos Lumière, a sensualidade de Marylin Monroe e a postura de Kennedy ? E a vida no limiar de curvas que Ayrton Senna tão bem definiu ? E Ghandi, Martin Luther King e Chico Mendes ? Quem pode ignorar o sentimento infinito de amor ao observar tais modus vivendi. Está tudo aí para que sorvamos estas pequenas demonstrações de quão grande é o amor.

Entre os vivos, ele permanece e adquire novas feições a cada dia. Está no Nobel de Saramago e no Urso de Prata de Fernanda Montenegro. Está na narração quase esgoelada de José Silvério e na torcida brasileira de Fiori Giglioti. No pulo do gato de José Paulo de Andrade, nos filhinhos de Silvio Luiz e na voz irresistível de Cid Moreira. É o vocabulário escorreito de Caetano e as redondilhas de Chico. É a dança acrobática de Michael Jackson. Está em todas as atitudes soberbas mas, principalmente na humildade de cada um de nós. No bom dia, boa tarde, boa noite e como vai ?. É o respeito mútuo, um tanto esquecido aqui ou alhures neste final de década, século, milênio. Evoé amantes de hoje, ontem e sempre.

O amor está na eternidade. É Romeu, Julieta e Hamlet. E o Retrato de Dorian Gray também. Na loucura maravilhosa de Camus e no top dos tops Cidadão Kane. É a Madame Bovary de Flaubert, a Capitu de Machado de Assis, a Lolita de Nabokov, o ET de Spielberg, o Time de Pink Floyd, o Barbeiro de Sevilha, a Monalisa, os navios e espumas de Castro Alves e milhares, milhares, milhares e milhões de provas que o amor está aí e, assim, bateríamos a grandiosidade da Bíblia de Gutenberg. É Sabin, Pauster, Freud e todos aqueles que preservam a vida e a psique. Também está presente no J’Accuse de Emile Zola, nos manuscritos de Rui Barbosa, no sangue frio de Truman Capote e na liberdade de Herzog.

Enfim meus amigos, não há como defini-lo, talvez pressenti-lo mas, principalmente, exercê-lo em todos os instantes de nossa passagem meteórica por aqui. Amor desconhece raça, credo ou comportamento. Está disponível para agnósticos e ateus, espíritas e católicos, protestantes e budistas, nobres e vassalos, negros e brancos. É o tudo, porém nunca é o nada. E enquanto bom sonhador convoco todos os mortais para que amem. Sim, amem com todas as forças. Jamais se envergonhem ao chorar de alegria ou se emocionar com o sorriso amigo. É achar eufonia na microfonia e a visão perfeita na cegueira. É o paradoxo da sensatez e a loucura bela que faz com que sejamos capazes de girar as pás desse moinho (a la Cervantes) chamado existência. Amor é cem por cento sentimento, transpiração, sabedoria, inspiração, prosa, poesia, leitura e a mescla de tudo. O que sobrar para a humanidade é detalhe...

Texto publicado originalmente em 1998 sob o pseudônimo Carmine Victório para concurso da Casa do Novo Autor Editora

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Pobre de nós, trogloditas!

Carmine Victório (*)

Perdoem-me a blasfêmia inicial. O Juiz Supremo fez o mundo, a terra, o sol e a água. Mas faltavam sal e pimenta. Mesmo se Ele concedesse a Adão o poder da maternidade ou do hermafroditismo, tudo seria muito chato. Deus, por ser onipotente, criou a mulher semelhante ao homem. Porém, muito melhor.

Desde Eva travamos uma batalha onde sempre somos derrotados. Pobre de nós, trogloditas. Nosso poder de sedução é circunstancial, forçado, artificial, estéril. Nelas, a sedução e a arte de amar são inerentes. Quem não se curva ao sorriso e até à introspeção de uma mulher ?

O que temos de melhor devemos a elas. Quando estamos no topo é a mulher que lá está, muitas vezes, incógnita. No ostracismo é ela, também, quem nos ampara. Pobre do homem que ao chegar ao seu refúgio não tenha a quem recorrer, desabafar, talvez brigar e, principalmente, amar.

Sexo frágil ? Não ! A mulher vende uma fragilidade e durante anos foi até subserviente por imposição masculina. Mas que seriam dos impérios e cruzadas sem a presença delas ? Maria Madalena, Joana D’Arc, Marquesa de Santos, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Jackie “O”, Leila, Elis e tantas mais que influenciaram e influenciam a tudo e a todos. Há grandes homens, mas percebam que elas sempre estiveram lá, decisivas, pois as mulheres nascem grandes, dispensando letras, alfarrábios e diplomas. Só ela é menina, mãe, enfim, mulher.

Brancas, morenas, negras e ruivas, baixas ou altas, qual é a mulher ideal ? É aquela que nós idealizamos em nossos pensamentos. Viajo em cada curva e bebo em sua fonte de eterna vitalidade. Amo-as todas sem distinção, pois até o substantivo feminino é mais belo. Estrela, lua, fera, vida, saudade, verdade e tantos outros que figuram nos léxicos de plantão.

A mulher tem um quê de exótico e enigmático mas, ao mesmo tempo, é tão simples como a natureza e cada gota de orvalho que tornam as flores mais belas ao amanhecer. É o amor e este é capaz de justificar o injustificável. O amor sobrevive por si só. Não precisa de teoremas, nem teorias. Por isso, amor e mulher caminham juntos numa abstração tão real, provando que Deus é perfeito, pois deixou sua melhor obra para o final encerrando assim, o perfume que faz-nos crescer e amadurecer todos os dias.

Texto originalmente escrito em 1998, sob o pseudônimo Carmine Victório para concurso da Casa do Novo Autor Editora.