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domingo, dezembro 07, 2008

Boas notícias?

por Sylvio Micelli

Maluf preso. Jefferson cassado. Severino por um triz. São notícias que tempos atrás, não imaginaríamos. Se não fosse por uma sensação de que tudo está, inexoravelmente, perdido poderíamos até imaginar que o Brasil está no caminho certo. Talvez aquele mesmo discurso nacionalista piegas do regime militar, quando se bradava que ninguém segura (sic) este país.

Temo, porém, pelo futuro. O Brasil, no campo político, ainda não tem nomes. Por conta da democracia, sou favorável que Lula termine seu mandato e que a população dê a resposta nas urnas. Mas temos pessoas capazes de mudar a ordem das coisas? Será que os brasileiros somos competentes para as necessárias e inadiáveis respostas? Mesmo cassando-se deputados em penca ou colocando, mesmo que provisoriamente, políticos corruptos atrás das grades resolvemos todos os problemas?

Acredito que não. Treze anos atrás, servindo a múltiplos interesses, Collor foi cassado. Muitos pensaram, eu incluso, que a partir de então todas as nossas mazelas seriam purificadas. Claro, e que isso fique bem explicado, que a "página Collor" foi de suma importância para o país. Mas foi pouco. E continua sendo.

A pergunta principal, e que muitos se esquecem, é onde está o dinheiro? Marcos Valério tratou milhões de reais como eu trato minhas moedas no bar da esquina. De onde veio toda esta dinheirama? Contas no exterior? Lavagem de dinheiro? Narcotráfico? O juiz Nicolau desviou milhões da obra do prédio do Tribunal Regional do Trabalho. Passou uns tempos na cadeia. Mas... o dinheiro foi repatriado? Alguns tostões, talvez. Mas o grosso está nas mãos deles, os tungadores da pátria varonil.

Fica uma sensação de vazio. E irrita-me não ter respostas. Parece que o Brasil tem caminhado, meio bêbado, meio equilibrista - permitam-me o plágio da letra de Aldir Blanc, imortalizada na voz de Elis. A economia, sob a égide do "deus-mercado", não tem dado maiores problemas. Mas mesmo assim, há muito o que fazer.

Há muitos esqueletos insepultos. Celso Daniel, Toninho de Campinas, o restaurante Fiorella, as contas de Severino e de Duda Mendonça, as exageradas viagens de Lula - até para a Guatemala! - e o sonho de uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, cuja intenção real desconheço e não compreendo. Acho que o governo tem muito ainda a fazer por aqui para mexer com a ONU, que para mim, é o 51º estado norte-americano.

Rogo para que tudo se resolva no Congresso e que o Brasil volte a trabalhar. Ainda há mendigos e malabares nos semáforos da Radial. Não quero, nem posso ser um desesperançoso como eles.

Texto originalmente escrito em 17/09/2005

quinta-feira, novembro 13, 2008

O cerco que se fecha

por Sylvio Micelli

Quando começou toda essa confusão com os escândalos de corrupção no governo federal, meu medo era a economia. Com as bombas sobre a cabeça de "Paloff", o cerco se fecha. E, definitivamente, tudo pode acontecer.

Não tenho aquele medo estriônico dos que dominam o "economês". Afinal não sei muito bem para quê servem as taxas de juros. Também pouco compreendo as variações do dólar. E mercado flutuante para mim não significa nada, além de, num devaneio, imaginar o Mercadão Municipal boiando no Rio Tietê, enquanto devoro um sanduíche de mortadela.

Gostaria, sinceramente, de que nada disso ocorresse. Tento imaginar a burguesia composta por seus "pequeno-burgueses" tentando desestabilizar Lula e sua trupe. Mas os escândalos são tantos e as evidências tão evidentes, com perdão da redundância, que temo pelo pior.

Não! O pior não é haver o "impeachment" de Lula e Zé Alencar. Nem ter a volta dos cara-pintadas que só acordam quando a uva vira vinagre. A história recente de nossa democracia imberbe provou que tirar um presidente foi um avanço dentro do ponto de vista de cidadania. Políticamente, o significado é diferente.

Collor saiu. PC Farias foi assassinado. Havia motorista, cunhada, irmão traído e um Congresso Nacional ávido por sangue.

Hoje, as mesmas figuras emblemáticas de ontem ressucitaram. Lula, ainda não saiu. E nem acredito que venha a sair. Marcos Valério, ainda não foi assassinado. Nesse caso, não posso garantir se ele não entrará no rol dos "arquivos queimados". Há ex-mulher, tesoureiro oficial e alternativo, malas, cuecas e um Congresso Nacional ávido por sangue.

Aliás, figuras carimbadas de nossa vida pública lá estavam em 1992. Cá estão 13 anos mais tarde. Roberto Jefferson, ardoroso defensor de Collor, hoje goza de prestígio maquineísta. Capaz de entorpecer qualquer pensador bilhões de vezes mais inteligente que eu. Ao mesmo tempo ele é o algoz e o redentor, numa situação "sui generis" que só o Brasil varonil poderia trazer.

Mas vamos aos dados concretos. O grande problema da nação chama-se Congresso Nacional e o povo temos grande e incomensurável parcela de culpa. Lula poderá sair. E o Brasil ser presidido por Severino, ou Renan, ou Jobim, membros de uma direita reacionária que pensávamos sepulta. Isso, tirar mais um, em nada resolverá o problema.

O que precisa ser feito é uma renovação no Legislativo. Veja bem. Temos 513 deputados e 81 senadores. São quase seiscentas pessoas, de cujo bom senso, nem deveríamos duvidar. Mas não é por aí que a banda toca. E quem conhece Brasília sabe disso.

O projeto de poder que está no Palácio do Planalto com Lula também esteve com FHC, Itamar, Collor, Sarney, militares, Jango etc etc até Deodoro. Isso apenas para pensar em República. O poder é algo que vicia o ser. Quase orgânico. Todos os presidentes sabem que para governar, ou seja, para executar o projeto de poder, que o finado Ministro Sérgio Motta avaliava em 20 anos, precisa do apoio dos deputados e senadores.

Agradar tanta gente não deve ser fácil. Lá no clima seco de Brasília, as coisas fervem no Congresso. A maioria dos parlamentares, com raríssimas e honrosas exceções, querem também dar andamento aos seus projetos que versam, normalmente, sobre "rebanhos eleitorais". Poucos dentre os 594 se destacam. Atuações positivas nos estados de origem não significa sucesso na Capital. Evitarei nomes. Mas já vi muito deputado estadual de bom
trabalho, simplesmente, sumir no Planalto Central. Lá em Brasília é poder ou poder. Ter boas votações também não significa sucesso nos salões verde ou azul. Isso tudo porque o Congresso hoje é um grande balcão de negócios. Lá há bancadas que defendem interesses corporativos em detrimento do interesse público, essa coisa subjetiva e amorfa, quase impossível de definir. Além de cada parlamentar defender o seu "quinhão", seu nicho eleitoral.

Isso tudo e termino por aqui apenas para dizer... ops, escrever. Se não escolhermos o deputado direito vamos tirar trocentos presidentes picaretas. Mas manteremos os outros tantos lá, nesse grande truque de mal gosto que fizeram com o Brasil.

Texto originalmente escrito em 20/08/2005

sábado, novembro 08, 2008

Resumo da Ópera-Bufa Lulesca-Jeffersoniana

por Sylvio Micelli

A questão primordial que vejo neste caso todo é um processo de desmistificação de Lula e companhia graças ao "holofotismo" da mídia... Nós jornalistas, e que atire a primeira pedra quem pensar o contrário, adoramos sangue! Ver o circo pegar fogo. Algo como: "tá vendo, eu não falei?" Torcer pelo inferno de Dante... Citar "O Príncipe" de Maquiavel como um bálsamo para todos os males.

Quando Lula fala - e fala cada besteira - "que todo mundo já fez", ele está certo! O jeitinho brasileiro já está intrínseco à cultura tupiniquim. Quem de nós já não pensou em dar um "jeitinho", ou pagar um "cafezinho", numa situação em que estivemos do outro lado da lei ou do que quer que seja? Atirem quantas pedras quiserem.

A própria eleição de Severino Cavalcanti à presidência da Câmara dos Deputados é reflexo disso. Ele se autodenominava representante do "baixo-clero". Uma espécie de Robin Hood às avessas. Ele é o povão sim! Aquele que ajuda pinguços na cidade-natal. Ou que aceita o nepotismo diplomado.

A questão lulesca-jeffersoniana é muito menos importante que a patuléia nacional. Se houver o "impeachment" de Lula - o que acho pouco provável e nem torço para isso - vai apenas ser mais um caso, como o de Collor, nessa endemia nacional pouco resolutiva. Precisamos pensar, ainda, que vivemos num país novo (são 500 anos) em relação a outros tantos milenares e ainda buscamos uma identidade... Meus ancestrais vieram da Calábria e descendem dos mouros... Aqui, as múltiplas etnias não nos concedeu uma cara. Tenho que lembrar, com infinita saudade, de Cazuza! "Brasil, mostra a tua cara!"

Para piorar há diferenças gritantes na sociedade brasileira... Enquanto estou aqui no computador conversando com o "mundo", não muito longe daqui em Marsillac, na zona sul ou Terceira Divisão, no final de Sapopemba na leste (nem precisa ir ao Nordeste) há comunidades que desconhecem luz, esgoto etc e tal... E estou falando da cidade de São Paulo, a esquina do mundo...

Pois bem. Nunca achei que Lula fosse resolver todos os problemas. Primeiro porque seria um maniqueísmo burro e não me deixo levar pelos sofismas que aqui ou acolá, tentam nos impor. Segundo porque nossa pseudo-democracia é ainda imberbe... E o mais importante dos fatores: nossa sociedade pequeno-burguesa sugou o país de tal forma sem conceder-lhe nada em troca que seria boçal da minha parte aceitar mudança radical em 4 anos. Aliás... acho que se começarmos a alterar algumas coisas, os efeitos serão lá na frente. 10, 20, 30 anos.

Traço críticas aqui à democracia porque ainda não tenho como compreender a democracia como um regime de governo que mantém crianças nos sinais, mendigos assassinados, malas e cuecas milionárias andando por aí. Mas, por enquanto, não apareceu outro regime despojado de idiossincrasias em contraponto às ditaduras que não cerceie liberdades, nem mate Herzog.

Esta ópera-bufa maluca traz à tona uma sensação geral de corrupção. Mas, o que sobra de fato é uma paralisia que prejudica o Brasil. O que mais me entristece, além da situação em si, porque quem me conhece sabe o quanto amo a ciência Política, é o agravamento da crise e as desculpas esfarrapadas do partidários de Lula.

Resquentar denúncias velhas, afirmar que todos fazem as mesmas coisas, tentar conspurcar a opinião pública e transformar corrupção em crime eleitoral é golpe baixo daqueles que sempre investiram-se da aurela de anjos, arcanjos e querubins. Agora acenam com um grande acordo... Uma enorme pizza a cobrir o Eixão Monumental. Que nem prefiro comentar. Mas que de modo algum assustar-me-á...

Oras... Os ainda partidários de Lula pensam que eu sou burro. Ou ingênuo. Ou imbecil. Até posso ser tudo isso. Ou cada vez menos saber das coisas como diz o mestre Cony. Mas eu sei muito bem o que todos fizeram nos verões passados.

Eu sei o que Sarney fez para permanecer no poder. Sei o que ele fez para chegar ao Poder. Sair do PDS e se juntar à Tancredo. Eu sei todos os casos de corrupção do Collor e até em que circunstâncias ele foi alçado ao poder pela mesma mídia que o derrubou. Também sei da língua afiada de Itamar e suas namoradas e sei muito mais dos oito anos de tucanato do FHC. Sei que houve compra de votos no caso da reeleição. Sei das privatizações que foram nefastas ao país. E é bem provável que Marcos Valério já estivesse aí a financiar o propinoduto aéreo Pampulha-JK e conexões.

Mas também sei que Lula foi um metalúrgico que se transformou no maior líder sindical do país. E não entro aqui na questão de mérito de seus atos enquanto sindicalista. Sei que ele lutou para chegar aonde chegou com seus parcos recursos que todos conhecemos. Sei também das idéias que ele defendeu. Dos discursos que proferiu. E de todas as ilações e frases feitas que proferiu.

E aí - e sempre tem um condicional para atrapalhar - a roda pega. Nunca apreciei Genoíno ou Zé Dirceu. Nem sabia da existência de Delúbio, Silvinho e outros "companheiros". Nunca pensei tampouco que Lula daria um "cheque em branco" a Roberto Jefferson. Aquele mesmo que sempre gravitou em torno do poder constituído.

Em nome da tal "governabilidade", que expressa apenas um projeto de poder e não um projeto de administração, Lula fez os acordos que não devia. Este Lula não é o mesmo de 1989. Hoje é um Lula pasteurizado em embalagem Tetra Pak para regozijo dos pequeno-burgueses que acham uma "gracinha" ter um presidente que bebe pinga e leva sua finada cadela para passear em carro oficial.

Enfim, ele se cercou das pessoas erradas. Ouviu conselhos errados. Não posso acreditar que ele não soubesse das coisas. E tudo isso é lastimável. Porque eu e mais 52 milhões de sonhadores votamos, como já escrevi, numa promessa de paraíso. Não votamos em Delúbio, Genoíno e companhia. Votamos no ícone. Elegemos o novo Messias. Pusemos nossas esperanças na brejeirice a la Mazzaropi de Lula. Ele era o comum do povo. Um pedaço de nós todos. E não foram promessas eleitoreiras. Durante um quartel de século, o Partido dos Trabalhadores com Lula, seu maior expoente, foi o Tim Maia da política. O síndico. Aquele pronto a soar o alarme. A derrubar o regime militar. A bradar pelas Diretas. A derrubar Collor. Lula foi esse brasileiro - que não desiste nunca. E nunca desistimos. Até eu que NUNCA havia votado no PT, porque sempre vi um ranço totalitário em suas hostes, rendi-me ao bordão nacional após o Penta: "agora vai!!!!!!!!!!!".

E não foi. E o "medo" venceu a "esperança". E tudo era tão igual que os petistas se armam para a defesa com comida resquentada. Ninguém fala "eu sou inocente". Todos falam "ele também fez". Todos correm em busca de provas contra os outros, mandam recados ameaçadores e não se defendem. A regra é mais ou menos assim "eu não me limpo, mas eu te sujo". Agora temos aí, dinheiro, poder, corrupção, mentiras... Ninguém fala em milhares, mas em milhões. Mas os milhões são outros. Não são de dólares ou de reais. Mas são reais. Somos nós...

E nós? E quem nos defende da fome, do desemprego, da "doença" pública que não é mais saúde? Das terras que não são cultivadas, dos malabares nos semáforos e da prostituição infantil em troca de comida? Não queria tudo resolvido em 4 anos. Mas pelo menos o começo.

Sei de tanta coisa. Mas isso não sei. Não sei em quem votar. Não sei em que acreditar. O Brasil perdeu a cor. E como disse recentemente o grande Luiz Fernando Veríssimo "quem quase vive já morreu".

Texto originalmente escrito em 30/07/2005